Narrativas do Medo – Organização Vitor Abdala



Livros de terror me atraem. E quando encontramos boas histórias o encantamento é ainda maior. Foi o que encontrei em Narrativas do Medo e, para que nada passe em branco, apresento então cada um dos contos lidos na obra. Como são contos de autores diferentes, naturalmente, a leitura pode ser feita de forma sequencial ou como o leitor preferir, posto que em nada interfere a leitura intercalada. Uma única certeza: boas histórias de terror te esperam.

Tocada pelo Inimigo é o primeiro conto do livro. Escrito por Rô Mierling o conto aborda a história de uma mulher que no trajeto para sua casa sempre vê e ouve um homem gritando que vê demônios. Assustador, não? Ela o desafia e a partir daí o leitor passa a ter contato com a história da personagem aos dez anos de idade, o que culmina numa ligação com a parte inicial do conto. Nós, leitores, adentramos o universo do sobrenatural com um relato que arrepia e provoca calafrios. Instigante para a abertura do livro. O conto é baseado em um relato real e a narrativa do medo já dá suas caras logo na primeira história. Bom começar um livro, cujo conto primeiro da obra já nos dê uma boa ideia do que vem pela frente. Tocada pelo Inimigo, sendo um excelente conto, inicia Narrativas do Medo em alto nível.

Sete Cordas, de Márcio Benjamim é uma história com regionalismo, manifesto na forma com que os personagens falam e agem. Sebastião, ou Bastião, é um homem que está em seus últimos dias, portanto caminha para a morte. Ao lado de seu parceiro Tenório, um violeiro, ele passa por situações inusitadas, até que aos poucos temos a revelação do sobrenatural na trama. A narrativa de Márcio é agradável de ler, dá força aos personagens e mostra a vastidão de tipos que há nesse Brasil, vez que sai dos grandes centros. Terror genuinamente brasileiro e que agrada muito.

César Bravo participa da antologia com o conto Agouro. Um homem atormentado por vozes que o persegue é o personagem central da história. Ele passou a ouvi-las após um traumático episódio ocorrido no período em que estivera preso. A tensão e o medo chegam ao leitor. As consequências do que tais vozes são capazes são imprevisíveis. Um personagem pastor faz o contraponto com o obscuro que se apresenta no medo que aquele homem tem. É um ótimo conto, que prende a atenção de quem lê, tem uma narrativa coesa e nos conduz de maneira surpreendente.

O organizador da seleção de contos, Vitor Abdala, nos trás Gás Lacrimogênio. A história se passa durante uma manifestação, em que o confronto entre manifestantes e policias leva os últimos a utilizar a substância que dá nome ao conto. No entanto, as coisas tomam o caminho do inexplicável, com a presença de uma figura singularmente sinistra. Particularmente, gosto de como Vitor Abdala insere o sobrenatural em seus contos, o que se manifesta em situações corriqueiras ou completamente fora dos padrões, saindo das situações clichês. Vale a pena ler para compreender o que estou falando.

Yaoguai, do escritor Geraldo Fraga, tem também um personagem policial – protagonista que narra a história em primeira pessoa, durante uma forte chuva que acontece em Recife. Na emboscada para pegar um contrabandista os policiais acabam sendo surpreendidos. O conto tem um desfecho intrigante que nos pega de surpresa.

Necrochorume é o conto de Duda Falcão. O cheiro forte e uma substância espessa cor de piche aparece cobrindo um pássaro. Pai e filho estão juntos num local para a prática da pesca. Por ali acabam cruzando com uma menina que contracena com os personagens. O que acontece? A narrativa tem uma trama instigante e personagens enigmaticamente sinistros. A figura da garota é bastante peculiar e de certo chamará a atenção do leitor.

A Lenda do Raimundinho, de Daniel Pires, é um conto que traz algo similar as lendas que são bastante comuns em cidades pequenas. No caso em questão, a trama se desenrola em Avaré, no interior de São Paulo. Um menino morto, cujo túmulo do cemitério desperta curiosidade, traz a sobrenaturalidade para a cena. É nesse ar místico que o protagonista do conto se vê envolvido.

O próximo conto do livro é de autoria de Marcus Barcelos. O Velho Doria quer contar uma história. Por meio de uma frase o oculto pode ser invocado. “O velho Doria quer me contar uma história”. Um homem que, no passado, provocara incêndios nos Estados Unidos reaparece para trazer tormento e medo.

Penitência, de Rodrigo Ramos, como o próprio título do conto alude, aborda a história de um homem (um padre), que terá sua penitência ante o pecado que cometera. O medo que o ronda em decorrência do passado, o leva a consequências tenebrosas, cercadas pela imagem de uma figura sinistra e a presença de crianças. A provocação do conto em usar um ambiente religioso para colocar o contraponto com os males que destaca deixa a história ainda mais intrigante.

Filhos do Escuro, de Hedjan C. S é o décimo conto presente no livro. Um barulho chama a atenção do personagem. “Primeiro, foi o som de pés arrastando, depois um baque e agora a maçaneta.”  E a vida do crime era prazerosa para Abel, mas ele encontrara em seu caminho um garoto, filho de sua amada Gerusa. E o que Abel fez voltará de maneira tenebrosa.


De Marcos DeBrito, Soturno é narrado em versos. A história de um pai que perdeu o filho para a tuberculose. Adiando seu suicídio, ele recebe a visita da morte. Surpreendi-me com o texto em verso do autor, que consegue transmitir toda a essência de sentimentos desse pai por seu filho, a dor que ele carrega e o medo e angústia que sente diante da morte, com seus questionamentos e sua afronta a ela.

Malditos Palhaços é o conto que segue. Alexandre Callari, o autor, aborda a história de um escritor chamado Steve. Começa com uma entrevista numa rádio em que revela-se que o livro “Medo”, lançado pelo personagem, remete ao It, de Stephen King. Das páginas do seu livro para a vida real o palhaço maldito o assombra.

Alfer Medeiros participa com o conto Aquela que Espreita. A mente turbulenta de um personagem que se vê mergulhado na escuridão é o cerne da trama. À sua espreita há algo que é capaz de provocar medo e situações obscuras.

Pesadelo em Sachsenhausen, de Paul Richard Ugo é o conto que dá sequência ao livro. O terror manifestado pelos campos de concentração. Um homem que teve sua família judia atacada se depara com um hotel em que morou Theodor Eicke, um homem de confiança de Hitler. Entre o real e o imaginário, a sanidade e a loucura, o personagem passa por um pesadelo que faz com que o medo o persiga todas as noites.  Apavorante!

Em O Balanço da Velha Árvore, Ademir Pascale, nos traz um conto que remonta a história de uma criança que aguarda alguém para brincar (e para desvendar um certo mistério). A narrativa é breve, mas bem estruturada e mexe com o imaginário de quem lê.

As Moscas Dormem de Madrugada, tem o título mais inusitado da publicação e o que mais me chamou a atenção. De autoria de Flávio Karras, traz uma história que aborda sexo, prazer e morte. A frase que dá nome ao conto, segundo a trama, foi dita por uma carroceira na época da peste negra. Um conto bastante criativo.

Mundo em Fúria é de autoria de Petter Baiestorf. Aqui temos a presença do terror distópico. Um evento transforma a vida da humanidade e a história se baseia no casal Adão e Eva (não o casal da Bíblia, embora o nome pareça claramente uma referência) e revela um novo gêneses.

Sobreviventes, de Melvin Menoviks conta a história de pai e filho que estão em busca de alcançar o Eldorado. São eles os únicos sobreviventes. O conto mostra que a fome e a sede podem provocar coisas terríveis.

Narrativas do Medo é uma antologia de horror que reúne dezoito contos de grandes nomes do terror nacional. Cada um traz o seu estilo e o seu método de contar histórias, surpreendendo o leitor a cada página. Fica claro, outrossim, o estilo próprio de cada um dos autores em sua narrativa. Alguns apresentam um contorno de viés psicológico, outros escancaram o medo e o terror com muito sangue e corpos dilacerados, outros trabalham com a imaginação do leitor em deixar no ar alguns aspectos sombrios.

Os contos presentes no livro são tenebrosos e trazem o cerne da proposta que é o medo. Ele está presente de distintas formas e rondando os personagens da obra. Um livro que prende a atenção do leitor, sem dúvida. O conto de Rô Mierling, na abertura da obra, já dá uma mostra da qualidade dos contos que seguem. E a qualidade se mantém, não decepciona os amantes de terror.

É fácil afirmar que a partir da leitura desse livro há o despertar do interesse pelas obras individuais de cada autor. Vale a pena ler. Leitura altamente recomendada, sobretudo para quem gosta do gênero terror, como é o meu caso.

E Narrativa do Medo – Volume Dois está chegando por aí. Fiquemos atentos para mais uma reunião de contos de terror nacional de qualidade.

Sobre o organizador

Vitor Abdala é jornalista e membro da Horror Writers Association (HWA), dos EUA. É autor das coletâneas Tânatos e Macabra Mente. Também é coautor das antologias americanas Horror Library – Volume 6 e Night Shades #1. Participou ainda de antologias brasileiras.

Ficha Técnica

Título: Narrativas do Medo
Escritor: Ademir Pascale, Alexandre Callari, Alfer Medeiros, Cesar Bravo, Daniel Pires, Duda Falcão, Flávio Karras, Geraldo de Fraga, Hedjan C.S., Márcio Benjamin, Marcos DeBrito, Marcus Barcelos, Melvin Menoviks, Paul Richard Ugo, Petter Baiestorf, Rô Mierling, Rodrigo Ramos e Vitor Abdala.
Editora: Autografia – Selo Neblina Negra
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-518-0454-4
Número de Páginas: 200
Ano: 2017
Assunto: Literatura brasileira

Narrativas do Medo – Organização Vitor Abdala Narrativas do Medo – Organização Vitor Abdala Reviewed by Tomo Literário on 07:06 Rating: 5

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