O Sol é para Todos - Harper Lee



O Sol é Para Todos, da escritora Harper Lee, foi publicado pela Editora José Olympio em 2015, com tradução de Beatriz Horta. A publicação original do texto ocorreu em 1960.

O livro é narrado pela pequena Jean Louise, ou apenas Scout como é chamada por seus conhecidos. A menina é órfã de mãe e vive com seu pai Atticus Finch, seu irmão mais velho Jem e Calpúrnia, uma espécie de babá, governanta e que cuida da cozinha da casa, além da educação dos meninos.

A narradora conta aos leitores experiências de sua infância, ao lado do irmão e de Dill  (sobrinho de uma vizinha). Eles vivem em Maycomb County, um lugar fictício que ficaria no Alabama, Estados Unidos. A história se passa num período importante, durante a década de 1930, enquanto ocorria a denominada Grande Depressão. Trata-se de um período de grave crise econômica que se iniciou em 1929, mas persistiu ao longo da década seguinte, terminando apenas com a Segunda Guerra Mundial. É considerada a pior e mais longa crise econômica do século XX.

Inicialmente o livro se desenrola abordando a constituição social de Maycomb. Pelo olhar de Scout, vamos conhecendo hábitos, habitantes, os pontos que assolam aquela região, o que se passa dentro da casa da narradora, na escola,  ao redor de onde vive. Inclui-se  aí as aventuras e traquinagens que eles realizam em frente a casa de Boo Radley, um homem que há muito vive recluso e que desperta medo. Mas, como a curiosidade das crianças sempre é grande, eles querem ver quem é esse homem. E aprontam um pouco para conseguir o objetivo, muito embora o medo em relação a ele persista.  

"O que o Sr. Radley fazia era problema dele. Se quisesse sair, ele o faria. Se queria ficar dentro de sua própria casa, tinha todo o direito de permanecer dentro  de casa longe da atenção de crianças inquisitivas, que era um termo suave para classificar alguém como nós."  Assim narra Scout depois de um episódio  em que são pegos tocando a sineta da casa de Boo. Numa árvore, na casa dos  Radley passam a encontrar objetos deixados num buraco, mas são surpreendidos quando este fora cimentado.

Episódios acontecidos na escola, que deflagram a necessidade de alguns alunos, que não tem dinheiro,  calçados, e que há muito não se desenvolvem também tocam o leitor nesse primeiro bloco. E vão dando o tom social das questões que serão tratadas ao longo da história, ao tomarmos contato com preconceito e pré-julgamentos. 

"Nós nunca sabemos aquilo que acontece às pessoas. O que se passa dentro das portas e janelas fechadas, os segredos..." 

Mais adiante o pai atende como advogado um morador do local chamado Tom Robinson. E trata-se de um caso de defesa de um negro, que suscita questionamentos por parte de outros habitantes da área. O homem foi acusado de ter abusado da filha de Bob Ewell e foi preso. Atticus diz para sua filha : "Scout, devido à natureza do seu trabalho, ao longo da sua vida um advogado tem sempre um caso que o afeta a nível pessoal. Penso que este é o meu. Com certeza vai ouvir algumas coisas desagradáveis na escola, mas me faça um grande favor: mantenha a cabeça levantada e os punhos em baixo. Não ligue pro que te digam e, sobretudo, não deixe que eles te irritem. Tenta, para variar, lutar com a cabeça... Verá que é uma boa solução, embora custe a aprender." 

O advogado Atticus é  um personagem cativante. A maneira com que cuida dos filhos dá aos outros a impressão de que as crianças andam largadas, mas o pai passa a elas experiências de compaixão,  amor, respeito, solidariedade e retidão. Num ambiente em que os irmãos passam a ser achincalhados e ouvem coisas desagradáveis acerca do pai, pelo fato deste defender um negro, Atticus é capaz de manter-se sereno e transmitir valores aos seus dois filhos. Como quando diz a Scout, em relação às pessoas desaprovarem sua defesa de Robinson: 

"Elas têm todo o direito de pensar dessa forma, como também têm o direito a que as suas opiniões sejam respeitadas... mas antes de viver com os outros, tenho de viver comigo próprio. E a única coisa que se sobrepõe à regra da  maioria é a nossa consciência." 

O julgamento de Tom Robinson ocorre e vemos em toda a sua história a externalização de todo preconceito contido na comunidade,  do racismo explícito e mesmo da irracionalidade humana. O que culmina ainda na injustiça feita a um homem.  Algo de irracional demonstra-se presente nessas ações de racismo. Harper Lee demonstra através de seus personagens o lado sombrio e sórdido de ações perpetradas contra a cor da pele. Algo que nos causa revolta, mas que é capaz de abrir-nos para uma reflexão profunda sobre a igualdade. E mais do que refletir, nos provocar e nos tirar da inércia e da refutação de que isso (racismo) não acontece. 




O livro nos faz mergulhar no ambiente hostil da bestialidade humana, de uma forma doce e envolvente do olhar de uma criança que vai compreendendo como pensa e age a sociedade da que faz parte. Visão pesada, mas necessária para que a diferença seja diminuída e não aumentada com dosagens cavalares de preconceito. Revela-se na história o preconceito tanto quanto ao tom da pele, quanto a posição social. Posto que aqueles que são pobres e negros são tidos como uma espécie menor dentro daquele grupo. 

"Se só existe um tipo de pessoas, por que é que não se dão bem? E se todos somos iguais, por que é que se esforçam tanto para se odiarem mutuamente?" 

Além das questões de preconceitos vemos outras imposições sociais: Scout é cobrada pelas vizinhas por não usar vestidos e se comportar como uma dama; as mulheres não podem participar de um júri; a sociedade se divide em grupos que se enfrentam no cotidiano de forma velada. Uma demonstração do que o ser humano pré-concebe e estabelece como modo de vida, sem se questionar frente ao que é diferente de si.

"O Sol é para todos" é um livro profundo,  tocante, provocador, questionador, e que desperta para temas que continuam tão atuais quanto na década de 1930, época em que se passa a narrativa. A leitura vale pelo texto, pela mensagem, pela mobilização que provoca no leitor. O livro foi premiado com o prêmio Pulitzer, escolhido pelo Library Journal como romance do século XX e sua adaptação cinematográfica recebeu o Oscar de melhor roteiro adaptado. “O Sol é para todos” merece atenção dos leitores. Um livro atemporal, de escrita impactante, sensível e profundamente tocante.

Já vendeu mais de trinta milhões de exemplares nos Estados Unidos e foi recomendado pelo presidente americano Barack Obama, que declarou: “Este é o melhor livro contra todas as formas de racismo.” 

Pra concluir fecho com um trecho do livro: 

"Chorar pelo inferno absoluto que umas pessoas fazem passar outras... sem dó nem piedade. Chorar pelo inferno que os brancos fazem passar as pessoas de cor, sem sequer pararem para pensar que elas, afinal de contas, também são pessoas." 

Excelente leitura!



Foto: Reprodução
Sobre a autora 

Nelle Harper Lee nasceu em Monroeville no ano de 1926, sendo a caçula de quatro filhos. A autora escondeu seu primeiro nome na época da publicação de “O Sol é para todos”. Ela não gostava que pronunciassem seu nome como “Nellie”. Seu pai, Asa Coleman Lee, era um proeminente advogado e é tido como modelo para Atticus Finch, personagem do livro. Harper Lee estudou direito na Universidade do Alabama. Além do livro, Lee havia publicado apenas quatro artigos na imprensa, até o lançamento do novo romance “Vá, coloque um vigia”. Em 2007, recebeu de George W. Bush a Medalha Presidencial da Liberdade. No mesmo ano sofreu um acidente vascular cerebral, vendeu seu apartamento no Upper East Side e se mudou para um asilo na cidade natal. Faleceu em 19 de fevereiro de 2016. 

Ficha Técnica

Título: O Sol é para todos 
Escritor: Harper Le
Editora: José Olympio 
Edição: 1ª 
ISBN: 978-85-0300-949-2 
Número de Páginas: 364 
Ano: 2015 
Assunto: Ficção americana

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