Navegue a Lágrima - Letícia Wierzchowski


No Uruguai, numa casa de praia, Heloísa, uma editora, refugia-se para viver isoladamente após o luto. A casa em que ela passa a morar era a residência de veraneio de Laura Berman, uma consagrada escritora.

Em meio a fotografias, bebida e outros objetos que pertenceram aos antigos moradores, além da casa propriamente dita, passa a debruçar-se sobre as vivências daqueles moradores de outrora: Lara, Leon (o marido) e os dois filhos (Daniel e Max).

“... Era a primeira vez que eu os via, em carne e osso, ou seja lá o que fosse aquilo. Eles estavam ali, todos os quatro, tão vivos e palpáveis como as próprias árvores, os pássaros e as rosas desfolhadas e rubras.” Notamos no trecho que a presença dos moradores vai ganhando contornos pela mente de Heloísa, como se ela os tornassem vivos ao buscar a história contida em cada canto da casa, em cada objeto que a rodeia, em cada foto que vê. O livro, como percebe-se também no trecho destacado é narrado em primeira pessoa. Heloísa é a narradora.

Perto de completar sessenta anos de idade, ela viveu com um homem por onze anos, separou-se, passou a viver com Lucas, um novo amor, que faleceu. Nessa casa em que se ela se retira para apaziguar o coração, ela mistura as suas lembranças com as histórias da família Berman. Ali ela rememora os momentos que viveu ao lado de Lucas, os bons e maus, narra a doença que o levou à morte e a relação que mantinha com o amado. De outro modo, ela também busca reconstruir a história do casal Laura e Leon, seus inquilinos ficcionais, como ela se refere a eles em alguns trechos.
Das relações, dos sentimentos, das lembranças e porque não dizer, da imaginação, nasce a história dos Berman que se cruza e se costura com a de Heloísa.

“O tempo é paciente, meticuloso e mourejador. O tempo derrubou reis, gerações inteiras de reais, desfez reinados, alianças, fortunas, apagou religiões e riscou povos inteirinhos da face da terra de meu Deus. Por que um simples amor entre duas pessoas, um homem e uma mulher, haviam de ser, assim, imune ao tempo?”

A relação dos Berman não era perfeita, mas era lapidada pelo tempo, pelos gestos, pela forma de compreender um ao outro, seja por um livro deixado em algum canto da casa ou pela vivência com os filhos correndo pela propriedade. Mesmo na ausência havia uma forma de lidar com a relação.


Relações de amor. Esse é o cerne do livro “Navegue a Lágrima”, da escritora Letícia Wierzchowski, publicado pela Editora Intrínseca em 2015. Relações de amor que se desembaraçam na convivência, nas lembranças, nos objetos deixados no meio do caminho, naqueles outros que são adquiridos pelo casal, nos detalhes de uma casa que viu a relação se construir, se ajustar, se adaptar, se transformar. Um amor que vive a mercê do tempo. O amor é cheio de qualidade, mas também de artimanhas, por isso, nas relações o amor pode não aparecer de maneira explícita, escancarada, mas pode estar lá, disfarçado.

Heloísa, a personagem que é editora, diz que “a literatura é invenção, é criação, mas sempre há o pó da vida nos cantos da literatura, como pegadas, como marcas sutis da humanidade e do passo do autor.” E por isso, o livro de Letícia encanta, chama o leitor para a história de Heloísa e suas descobertas, que antes de mais nada, é também a descoberta de si mesma.

Já havia lido “Sal” da mesma autora e conhecia “A Casa das Sete Mulheres”. “Navegue a Lágrima” é mais uma obra de encher os olhos do leitor. Letícia, mais uma vez, apresenta um belo texto. Uma literatura que se aproxima do leitor por tocar em sentimentos que podem ser tratados de maneira piegas ou cheia de clichês, mas que ela transforma em arte, com sensibilidade.

Foto: Carin Mandelli
Sobre a autora

Letícia Wierzchovski nasceu em Porto Alegre e estou na literatura aos vinte e seis anos de idade. Publicou treze romances e nove livros infantis. É autora de “A Casa das Sete Mulheres”, que inspirou a série homônima produzida pela Rede Globo, exibida em trinta países. Com obras traduzidas para nove idiomas, Letícia recebeu o Prêmio Açorianos de Literatura em 2012.

Ficha Técnica
Título: Navegue a Lágrima
Escritor: Letícia Wierzchowski
Editora: Íntrinseca
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-8057-744-0
Número de Páginas: 205
Ano: 2015
Assunto: Romance brasileiro

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