A Definição do Amor - Jorge Reis-Sá

A esposa de Francisco, Susana, sofre um acidente vascular cerebral (AVC). Ao passo que os médicos comunicam sobre sua morte cerebral, trazem também uma outra notícia a Francisco: Susana está grávida de doze meses. Nesse turbilhão de emoções que são lançadas de uma única vez, a gravidez ainda desconhecida por Francisco pode ter sido a causa do fatídico AVC.

Como a gestação da criança não será interrompida, Francisco lança-se frente a um diário, o diário de seu luto que dura de maio a outubro. É por meio desse diário, em que escreve na sua primeira página uma frase impactante: "Envelheci hoje a minha vida inteira", que ele recorda os anos de casamento, a chegada do primeiro filho, André, e tudo que viveu ao lado de Susana. O homem vai lidar com o corpo inerte da esposa e sua ausência que marca presença, rememora o que passaram juntos e tenta imaginar o que acontecerá depois de sua morte (concreta, no sentido não ter mais o corpo presente diante de seus olhos).

“A Definição do Amor”, do escritor português Jorge Reis-Sá foi publicado pela Editora Tordesilhas em 2016. São 253 páginas de pura emoção. Uma prosa poética que revela o amor de um homem e sua particular maneira de, em corpo presente, lidar com a ausência de sua amada. Ausência sentida diariamente no leito do hospital. Um aprendizado de como enfrentar a perda.

A filha que agora chegará, para juntar-se ao seu primeiro rebento o leva a um movimentado jogo de emoções. Diante dessa incongruência que é ter a morte entregando a vida, reflete também o medo frente a uma possibilidade de recomeço. É a vida que surge, ainda que nebulosa, no cenário da morte. Como lidar com essa criança estranha que chega desavisada? Como transcender todas as recordações carregadas de emoção, carinho e amor? Que sentido tem a perda diante do amor? Como lidar com tantos sentimentos controversos, todavia complementares?

"Tenho quase quarenta anos. Dizem que é a meia-idade, que me falta outro tanto para viver ou, como sempre sonhei, que ainda tenho - tínhamos - outro tanto para existir. E, no entanto, a verdade é que os primeiros vinte anos não existiram. Ou, se existiram, não passaram dos alicerces onde construímos quem somos. Importantes alicerces? Concedo. Mas escondidos de nós, memórias escolhidas a dedo pela impassividade, ganhos, perdas, dores, felicidades, revoltas e afagos. Aos quarenta anos ainda há dois terços para viver, não metade. A juventude não serviu para nada - só nos lembramos de viver quando nos sentimos mortais, e não há quem se ache mortal aos vinte anos."

Francisco carrega os sentimentos conflitantes que o fato de perder a amada e ver sua vida se esvaindo causa. Esse cenário emocionalmente conturbado prova diversas reações num Francisco que rememora o passado, curte o luto presente e tem de lidar com o futuro.


Com  a narrativa do diário de Francisco, nós leitores, somos de certo modo tocados pela carga de emoção que ele exala. Na reflexão sobre a morte, no que foi vivido em vida, no que se vive hoje e na angústia da solidão que se solidifica e, da novidade de uma vida que floresce num momento obscuro. Nós leitores somos abalados pela carga de emoção. A morte nos sacode, o seu anúncio prévio e certo nos permite a preparação para o fato, mas também prolonga o luto. Francisco vive essa questão no período em que escreve seu diário. Convivemos com a visão do personagem ao longo das páginas e não dá  pra permanecer intocado, sem se emocionar.

O autor Jorge Reis-Sá, em seu segundo romance, deixa aflorar sentimentos e enche de beleza, sensibilidade, reflexão e emoção uma história rica, lírica e que, se não bastasse, nos arrebata no final.  Que livro é esse? Um livro emocionante, um belo texto, uma história marcante. Um livro que surpreende pela abordagem, pela narrativa poeticamente bem utilizada e pelo personagem consolidado que nos relata seu diário com emoção profunda que nos conduz a reflexão. Sentimentos à flor da pele.

Uma excelente leitura!

Sobre o autor:


Foto: Ana Reis-Sá
Jorge Reis-Sá nasceu em Vila Nova de Famalicão, uma pequena cidade no norte de Portugal, em 1977. Entre 1999 e 2009, fundou e dirigiu as Quasi Edições, e foi diretor editorial da Babel de 2010 a 2013. Sua extensa obra de poesia está reunida no volume Instituto de Antropologia – Todos os poemas (Glaciar, 2013). Publicou também os livros de contos Por ser preciso (Cosmorama, 2004) e Terra (Sextante Editora, 2007), além de volumes de crônicas e dos romances Todos os dias (Record, 2007) e O Dom (Record, 2009).

Ficha Técnica
Título: A Definição do Amor
Escritor: Jorge Reis-Sá
Editora: Tordesilhas
Edição: 1ª
ISBN: 978-85-8419-038-6
Número de Páginas: 253
Ano: 2016
Assunto: Ficção portuguesa

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